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Câmara Municipal de Chamusca

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Charneca e Campina . Chouto

Capital da Charneca, onde se realiza a tradicional e centenária Feira de S. Pedro. Na sua imensa área de freguesia é frequente verem-se manadas de gado bravo pastando.

Distando cerca de 17 kms da sede concelhia e ocupando um território que se estende por uma área de 205,30 km² com 715 habitantes (2001), situa-se a Freguesia do Chouto. Esta, foi pertença do termo de Santarém e de Ulme. A partir de 1855 foi adstrita ao concelho de Chamusca. A data da fundação do Chouto é desconhecida, bem como a proveniência dos seus primeiros habitantes.

No plano administrativo sabe-se que o Chouto foi pertença dos condes da Castanheira, sensivelmente a partir do séc. XVI. O primeiro conde da Castanheira, D. António de Ataíde, foi também comendador da Ordem de Cristo, a qual exerceu uma forte influência na região. Posteriormente, em 1705, o Chouto passou para a casa do infantado, criada por D. João IV em 1654. A razão histórica para tal acontecimento, supõe-se, ter sido a progressiva centralização de poder, então em curso. Após a revolução liberal de 1820, tendo sido extinguida a Casa do Infantado, as terras do Chouto foram adquiridas pela burguesia ascendente que as transformou numa grande propriedade rural. 

:: A Floresta - O Montado de Sobro
 
Faz parte da paisagem do Sul. Árvore grande e de boa sombra para refrescar os calores de Verão, o sobreiro é uma fonte de riqueza e uma referência no espaço da charneca. Da Cortiça que dá se faz uma infinidade de coisas, do "cocho" para bebermos água ao revestimento do quarto onde dormimos e à rolha de uma garrafa. Da madeira se faz carvão que dantes se cozia em fumegantes fornos de terra espalhados pela charneca. Da sua bolota se alimentavam as varas de porcos e se aproveitam agora as ovelhas e as nuvens de pombos bravos. Debaixo deles, em condições especiais, despontam cogumelos que são suplemento da economia de quem os  conhece e colhe. À sombra de um sobreiro se pode dormir a melhor das sesta, passar pela ideia todas as voltas do mundo, desatar a imaginação  e construir, com as mãos próprias e a Cortiça  dele, das mais belas Peças do nosso artesanato rural.
 
:: A Esgalha
 
A esgalha é a poda do sobreiro, se assim se pode dizer. Faz-se de Novembro ao meio de Abril e consiste em retirar a madeira inútil ou excessiva. A velha machada que antigamente se usava na esgalha foi há poucos anos substituída pela motosserra que faz o trabalho mais depressa e com menos esforço humano. Como em todas as tarefas do campo, também na esgalha existem regras: assim, por exemplo, só se retiram pernadas de Cortiça virgem porque as de Cortiça amadia, aquela que vai ser tirada, não são obviamente para cortar. Por outro lado, o esgalhador sabe que o sobreiro tem de descansar nos dois anos que se seguem à tiragem da cortiça e por isso não se esgalha nesse período, como não se mexe nele nos dois anos que antecedem a nova tiragem.
A boia ou cortiça branca que vem agarrada a madeira é desboiada com uma pequena machada à falca: pega-se num pau ao alto com uma das mãos e com a machada na outra retira-se a cortiça aos poucos; quando estiver o trabalho feito de um lado, vira-se o pau ao contrário e faz-se o resto do outro. A cortiça assim aproveitada é vendida para as fábricas para moer e fazer corticite. Da lenha se faz carvão. 
 
 :: Os Fornos de Carvão
 
Até há meia dúzia de anos ainda era frequente ver-se, por essa charneca fora e até nas proximidades da vila, fumo saindo da terra, assinalando a presença de fornos tradicionais onde se fazia CARVÃO de sobro. No chão dispunham-se dois malhais, arrumados paralelamente uns ao outro, e sobre eles, outros paus de madeira forte, cruzados com os primeiros. Estava feita a base em que se ia colocar muita lenha, assim como quem faz uma cabana de paus toda muito bem composta e bem compacta, primeiro a lenha mais grossa, no fim a mais miudinha.
Os mestres carvoeiros, que ainda os há sabedores da arte e cheios de memórias dela, falam de fornos de lenha que chegavam a levar duas toneladas e mais, de que resultariam, no fim, uns trezentos quilos de carvão. À volta da lenha assim disposta colocava-se rama verde ou mato, fosse tojo, sargaço, fetos ou até junco. Não era para atear, era para abafar, que nisto de fazer carvão o segredo está em ir queimando devagarinho, numa combustão que seja lenta para que a lenha se vá transformando em carvão e em cinza não. Por cima de tudo fechava-se com terra: leiva se fosse Inverno, aterrando à finca com terra seca, nas outras ocasiões. Na frente abria-se uma boca, sempre virada a Norte por virem daí os ventos predominantes. No extremo oposto, uma gateira, para o ar poder passar. Ateado o forno, com a ajuda de um forcado, fechava-se de imediato a boca dele e abriam-se uns quantos buracos laterais, sete ou oito, com o cabo da enxada, para sair o fumo da combustão. Quando o fumo estava azul, era sinal de que a lenha estava em carvão. Nessa altura podia-se orientar o fazer do carvão, abrindo ou fechando buracos para adiantar ou atrasar a combustão. Se o forno começasse a abrir fendas, queria dizer que o carvão estava pronto. Então era preciso alagar essa parte do forno, batendo com a pá da enxada. 
 
O carvão fazia-se sempre da boca para a gateira, por alagamentos sucessivos, e nisto se podiam levar sete dias, ou dez, ou quinze, dependendo do tipo de lenha, do tamanho do forno e da qualidade que se pretendia dar ao carvão. Durante esse tempo todo tinha o carvoeiro de ser vigilante, verificando o estado do forno de manhã, ao almoço à tardinha e à noite, quatro ou cinco vezes em cada 24 horas. E quando tudo estava pronto, quando o forno dava à costa, no dizer dos carvoeiros, era então empoado: tapavam-se todos os buracos para que a combustão  terminasse de vez no interior. Ficando bem tapado, estaria o carvão pronto a tirar ao cabo de dois ou três dias. Para essa tarefa eram necessários dois homens: um, com enxada, que ia puxando a terra, desfazendo o forno; outro com uma grade, uma espécie de ancinho como o das eiras mas com dentes de ferro, para separar o carvão da terra, tirando torrões e terra que estivessem misturados. Durante mais dois ou três dias o carvão ficava às serras para que se apagasse qualquer brasa mais teimosa. E depois era pesar e ensacar. E no ensacar também havia perceito porque nada é ao acaso: eram grandes sacas que se usavam e que eram ajoanadas, ou seja, tapava-se-lhes a boca com marganiças, torciam-se as pontas e atavam-se uma à outra. Só então é que estava o trabalho pronto. 
 
:: A Tiragem da Cortiça
 
De nove em nove anos repete-se o ritual, numa sequência que não é eterna mas dura muito mais do que a vida da qualquer tirador. É de Maio a Agosto que a cortiça se tira, e é bom que tenha chovido bem na Primavera e venha o Verão quente sem ser abrasador. Sendo assim, sairão melhor as pranchas de cortiça.
O primeiro corte é feito à altura do peito de um homem, em redondo à volta da árvore. Depois faz-se um fio de alto a baixo, de cada lado do sobreiro, e começa-se a desagarrar a cortiça, com a unha da machada, que é como se chama o cabo dela, muito característico, em forma de cunha. A primeira prancha é tirada de cima para baixo, até ao chão; as restantes, sempre de baixo para cima. Se o sobreiro for muito grosso, fazem-se vários fios, três ou quatro, para saírem várias pranchas. É assim até às pernadas. Quando se chega aí, depende da grossura delas: tira-se em prancha, a dois fios, se der para isso, ou em caneleiros, a cortiça toda de uma vez com a forma de um canudo. A primeira tiragem que se faz ao chaparro, tirando a cortiça virgem, toma o nome de desboia. Na vez segunda é segundeira. Daí por diante é simplesmente amadia. E que lindas são as palavras!
 
Neste trabalho de tirar cortiça se ocupavam muitos homens, muitos mais do que agora porque muitos mais eram os sobreiros. Chegavam a andar aos cinquenta e aos setenta, nas herdades maiores, e alguns até vinham de outras regiões do país, sobretudo do Alentejo. Para lhes matar a sede, no calor do Verão, iam os aguadeiros, rapazes ou mulheres que tinham essa função, levar barris de àgua, trazida da fonte mais próxima, das muita de àgua límpida que então havia pela charneca, que deixavam ao pé dos sobreiros. E para matar a fome e ter forças para o trabalho da tarde, ia a panela com o comer adiantado que se cozinhava no local e que se comia em pé, cada qual chegando-se a ela, tirando a sua colherada e afastando-se de seguida para dar lugar a outro. Hoje já não é assim, porque são outras as facilidades de transporte e maiores as facilidades da vida. Mas mantém-se o ritual de voltar ao mesmo sobreiro de nove em nove anos. Mas mesmo que lá estivesse, facilmente quem sabe determinaria a idade da cortiça porque, cortando-se com uma navalha, depressa se descobrem nela as primaveras que tem.
 
:: O Artesanato de Cortiça
 
De que mais precisa um homem para fazer uma peça de artesanato, tendo o querer e as mãos, o jeito e umas poucas ferramentas, o tempo e a imaginação? Precisa só da matéria-prima. Para lhe mudar a forma, a função e o sentido. Para fazer arte.
E que melhor matéria-prima tem a charneca, não falando da madeira, para se porem as mãos a fazer dela coisas de espantar, do que a cortiça? Muita, maleável, macia, morena. Abençoada a árvore que a dá! Abençoadas as mãos que a afagam para nos encherem os olhos de espanto e a alma de encantamento! Querer, mãos, jeito, umas poucas ferramentas, tempo, imaginação e matéria prima, para lhe mudar a forma, a função e o sentido e nasce a arte. São vários os trabalhos em miniaturas executados pelo artesão José Maia, natural da freguesia de Chouto, grande transmissor da cultura deste povo para os vindouros. 
 
:: Locais a Visitar
 
- Igreja Paroquial N.ª Senhora da Conceição
(Património Religioso)
- Ganadarias da Ribeira de Muge
(Criação de Gado Bravo)
- Fonte da Boavista
(Património Rural)
- Parque de Lazer do Gaviãozinho de Cima
(Espaço de Lazer)
- Associação Caçadores Chouto Caça
(Actividades Cinegéticas) 
 
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